21.5.13

És a lágrima que me desce no rosto



Não quero que desapareças
Que mais uma vez me fujas

Quero que permaneças
Como hoje no espelho te vejo

Vou tatuar-te
Sob o meu olho esquerdo

20.5.13

Derrame-se toda sobre esta pessoa



Livre-se sem hesitar
De toda a mágoa que ainda restar

Desague neste mar
Seus últimos temores

Atraque neste porto
Seu seguro ancoradouro

Receba-me desarmada
E deixe-me cuidar das amarras

Atreva-se a estar inteira no desembarque
Permita que nos invada a felicidade

16.5.13

A segunda parte da saga



Contou-me um estranho beduíno
De olhos azuis e pele muito clara
Respeitado por aqueles que o seguiam
Que atendia pelo nome de Lawrence
Nos confins da desértica Arábia

Sentamo-nos em volta de uma fogueira
Sob uma tamareira com frutos carregada
Num oásis paradisíaco
E um horizonte com nitidez contornado
Na claridade de uma noite enluarada

Dizia-se que a Magnânima
Ao saber que teve o nome
Pelos quatro continentes espalhado
E que em muitas cortes
Em piada tendo se tornado
Sentindo-se com a honra maculada
Manda chamar seus melhores escudeiros
E determina que se espalhem por todos os reinos
Em busca do leviano milongueiro

Ordena que o tragam com vida e inteiro
Para que pague com o merecido sofrimento
Por todo o mal que causou
A quem o tratou com tanto apreço

Que por onde passassem oferecessem a qualquer cidadão
Uma boa quantia pela informação de seu paradeiro
E para quem o trouxesse preso
O mesmo peso do ingrato em joias do reinado
Além de terras e um título de nobreza à altura do realizado

Não demorou muito
Até que foi encontrado
No meio de uma festa rural
Nos rincões da Virgínia
Tocando banjo
Por uns poucos centavos e bebida

Foi amarrado e amordaçado
No porão de um navio confinado
E cruzando o oceano
Iniciou o retorno ao lugar
Onde seria com justiça julgado

Mas ao passar pelas Bermudas
Foram surpreendidos por uma tormenta absurda
Que engoliu a embarcação
Levando consigo toda a tripulação

Na confusão naufrágio
Conseguiu se desvencilhar das amarras
Utilizando-se de técnicas de ilusionismo
Oportunamente por um cigano ensinadas
Escapou por uma escotilha
E laçou com as cordas que ainda tinha
O corpo de um golfinho que por ali vivia

Até uma baia distante foi rebocado
E muito ferido
Alcança a praia a nado
Quase inconsciente e exausto
Desaba num sono profundo
Sono dos que sobrevivem a tudo

Amanhece o dia
Ainda confuso e sem nada entender
Abre os olhos e é ofuscado pela luz de um jovem rosto de índia
Que lhe dirige um sorriso largo
E palavras doces impossíveis de serem compreendidas
Mesmo sem saber se era sonho ou realidade
A visão de tão formosa rapariga
Foi trazendo calma ao viajante
Que chegou a se questionar se já não estaria num plano distante

A moça tinha olhos amendoados e escuros
Um olhar profundo e gentil
Pele jambo e macia
Pescoço altivo e esguio
Cabelos muito pretos lisos sobre o colo caídos
Peitos desnudos fartos apontando para o infinito
Quadril e coxas perfeitos em nobre cedro esculpidos
A mais linda visão que que alguém poderia ter em vida

Era habitante de uma aldeia naquela ilha perdida
Que compadecida com a situação
E encantada com beleza excêntrica do alvo rapagão
Ajuda-o a alcançar a sua cabana
E coloca-o para descansar em uma esteira de cana

Cuida com milenar sabedoria de suas feridas e esgotamento
Utiliza-se de chás caldos purgativos vomitórios e unguentos
E o faz sem interrupção
Até o franco restabelecimento do varão

Semanas se passaram
Até que fortalecido e consciente
Passou a circular pela aldeia
Para entender língua costumes
E conhecer toda a gente

Com tudo se encantou
Todos se encantaram com o estrangeiro
E mais do que todos
Aquela que da praia de uma tragédia o resgatou inteiro
Identificou que também havia em sua virilha
Uma marca com a exata forma da ilha
Idêntica àquela que trazia desde nascida
Na mesma topografia

A maviosa criatura
Filha do chefe aldeão
Entendeu que era aquele o amado a ela prometido
Há tantos anos esperado
Com vinda prevista em profecia
Um enredo há séculos em versos cantado

Agora que o oceano o tinha trazido
E confirmado pelo conselho de sábios
Fechava-se o ciclo
Estava selado o seu destino
Casariam-se de imediato

Realizou-se a cerimonia
Com toda a pompa que a ocasião exigia
E por sete dias e sete noites
Comemoraram-se as bodas com extrema alegria

Grande foi o orgulho da família
E não demorou até que este feliz matrimônio
Fosse presenteado com a geração de um pimpolho
Menino predestinado
Que deste pequeno seria educado como futuro líder de seu povo

Até que num belo dia
Após seis anos de aparente calmaria
Pescando junto a um rochedo
Pai e filho são surpreendidos por um imenso cetáceo
Que emerge em sua frente e o engole rapidamente
Consegue ainda ordenar ao garoto que se proteja e retorne à aldeia
O gigantesco animal era na verdade um submarino disfarçado
E apesar de debater-se ferozmente
Acabou em definitivo
Sendo contido e sedado

Desperta confuso e assustado
Sem saber por quanto tempo ficou desacordado

Está no centro de um grande anfiteatro
Com gente para todo o lado
A Soberana num trono à direita
Juízes ao centro perfilados
E à esquerda uma vintena de caras amarradas
Aparentemente jurados

O ritual transcorreu rápido e sem embaraços
É condenado à morte por decaptação
Pelas acusações de calúnia e difamação

Mas segundo as normas daquela casa
Todo aquele que será executado
Tem o direito a um último desejo realizado

Pede então que lhe tragam um instrumento
Para que sua última canção a todos pudesse dar conhecimento

Um alaúde foi providenciado
E pouco antes de iniciar a audição
Lembrou-se sua Majestade de como fraquejou
No exato momento em que se iniciou a anterior execução
Mas antes que pudesse evitar que o tocasse
Arpejos já flutuavam no ar
E novamente enfeitiçada rendeu-se à situação

Fora de sua habitual seriedade
Manda que se retirem todos do tribunal
E ordena que acompanhem o forasteiro
Até a ala do palácio
Onde são acomodados os chefes de estado
Que o tratem com honras de cavalheiro
E o conduzam com digna aparência
Até os reais aposentos

O receoso andarilho
À principio recusou-se a entrar na majestosa câmara
Mas avaliando os riscos que corria
E não conseguindo mais tirar os olhos de tão maravilhosa Dama
Pois a Rainha apesar do tempo
Conservava intacta sua descomunal beleza
Resolve entregar-se inteiro aos desejos
Que no passado tantos prazeres lhe renderam
E mais uma vez carregou-a nos braços e pousou-a suavemente no leito

E assim ficaram por um longo tempo trancados
Até que saciada e com o feitiço já amainado
Atende aos anseios de seu coração
E pede humildemente ao forasteiro que fique de vez
Que aceite aquela condição
Dando-lhe o direito de ter tudo o que deseje

Adianta-se oferecendo-lhe um ducado
Terras a perder de vista
Mil vassalos
E canastras com ouro preenchidas

Mas o moço
Lembrando-se de seus amores de antes
Recusa a honraria
Conta-lhe sua história
Agora parecendo tão distante
E pede que seja mais uma vez libertado
Clamando à Anfitriã grandeza e misericórdia

A nobre Senhora compadecendo-se deste amor tão verdadeiro
E não querendo quebrar sua real palavra
Manda que lhe tragam montaria
Boa cela arreios
Provisões para a longa jornada
E uma escolta armada que lhe garantisse segurança
Até os limites do reino

Sai do castelo com o peito aliviado
Sentindo-se agora livre como um escravo alforriado
Deixa aquelas terras disposto a reencontrar seus amores
E retomar sua vida
Como a tinha deixado antes do desterro forçado

Muitos percalços e dificuldades retardaram sua volta
Mas quando finalmente pensou ter chegado
Mesmo devidamente orientado
Não acha nem um grão de areia no ponto onde seu coração tinha deixado
Nada via que lembrasse a ilha que lhe foi tão cara um dia
Descobre ao abordar um barco pesqueiro que ali passava
Que um terremoto varreu do mapa toda a terra que outrora ali se encontrava
E que dos simpáticos habitantes do lugar
Nunca mais se tinha ouvido falar

Arrasado com o acontecido
Perdido e sem lastro
Vê-se forçado a retomar seu antigo destino
Voltando a errar pelo mundo
Como um menestrel
Reles mendigo

E para jamais esquecer sua dor
E manter vivos os detalhes dos fatos
Compôs esta canção
Na forma de um lamentoso fado

15.5.13

A poesia me desafia



Adoro esse desafio
Não pela competição
Ou prazer de ser desafiado

A poesia me ensina
A ir além do aparente
Não me satisfaço com o imediato


14.5.13

Que amor é esse



Que esfria ao relento
Maltrapilho caminha
Enfraquece com ação do tempo

Sob uma marquise se aninha
E só serve de argumento
Pruma barata poesia?

13.5.13

Terás sempre o melhor de mim



Se for este o teu desejo
Mas será preciso pedir

Jamais violarei tuas fronteiras
Necessito ser convidado

Assim estarei desarmado pra ti
E em minhas habilidades marciais
Treinado

10.5.13

Para saber se o que escrevo tem algum fundamento



Afaste-se de mim
E retorne quando achar que já é tempo

Em seguida releia-me
Num outro contexto

A impressão que terá
Validará o experimento

9.5.13

Hoje acordei com o braço esquerdo doendo


O mesmo que fraquejou
E quase não aguentou o teu peso
No dia em que retornaste
À terra em que nascemos

Não aceitei
Que ninguém pusesse a mão em ti
Fiz o que tinha a obrigação de fazer
Limpei o teu corpo
Lacrei tuas portas
Vesti em ti o terno novo
Arrumei-te com dignidade
Para o último pouso

Por toda a vida recusaste flores
Mas nisto fiz questão de desobedecer-te
Flutuaste num mar de cravos amarelos

E foi só neste momento
Observando no teu rosto
As semelhanças que temos
Que me permiti um explícito choro

Foi aí que cresci
Foi aí que abandonei para sempre
A criança que havia em mim
E decidi que seria forte
E decidi que seria feliz

8.5.13

Mesmo na rocha mais inóspita



Pode aparecer uma fenda
E nela nascer uma flor
Com tamanha delicadeza
Capaz de com o tempo
Quebrar qualquer resistência
E transformar o chão duro
No mais caloroso útero

7.5.13

Não queira se ferir



…...............São.................
..........Estes........................
..................Os....................
….......Meus.......................
…..............Espinhos..........

6.5.13

Choro na chuva



Para que quando chegue
Não percebam que choro

Tomo chuva e choro

Choro neutro
Que preenche continentes
E afoga a minha sede

Busco o choro da chuva

Choro que molha por fora
Me encharca as paredes
E não permite que vaze uma gota
Do que trago latente

3.5.13

É perigoso lidar com o interior de uma pessoa



Vai que o indivíduo gosta do manuseio?

Leva o enfermo para dentro
Dimensiona o estrago
Junta os cacos
E com cuidado cola
Pedaço com pedaço

Vai que se apaixona pelo resultado?

Aí fica tudo mais difícil
E não há muito o que fazer em contrário
Não foi obedecido o distanciamento necessário

O sujeito vê que onde havia uma pilha de fragmentos
Aos poucos se recompõe um ser inteiro
Complexo e cheio de dedos

Cicatrizes por todos lados
Asas brotando nas costas
Movimentos voluntários
E um mundo todo para ser percorrido pelo alto

Tempo bastante para escolher um lugar apropriado
Fazer um pouso adequado
E segurança para começar tudo de novo

Só não se leva em conta
Que na oficina de restauração
Restou uma ferida aberta no coração de quem ficou

Que mesmo sem querer
Se afeiçoou

2.5.13

Embora um pouco justo



Neste velho corpo
Por algum tempo ainda caberei

Até quando não sei
E até mesmo como deste aperto sairei

Se dele serei expulso
Ou se voluntariamente me mudarei

30.4.13

Você ainda será capaz de me amar amanhã?



Apesar da enormidade do tempo
Apesar do cotidiano e todo o embaçamento
Você ainda será capaz de me amar amanhã?

Apesar da mediocridade
Apesar das tempestades
Você ainda será capaz de me amar amanhã?

Apesar da decepção
Apesar de cada um ter sempre razão
Você ainda será capaz de me amar amanhã?

Apesar da falta de atenção
Apesar da maledicência dos que não têm noção
Você ainda será capaz de me amar amanhã?

Apesar do beijo restrito aos lábios
Apesar do abraço pouco apertado
Você ainda será capaz de me amar amanhã?

Apesar da emoção embotada
Apesar da consciência pesada
Você ainda será capaz de me amar amanhã?

E quando um outro amanhã chegar
E a semana recomeçar
E novamente no fundo dos olhos lançarmos olhar

Antes do cumprimento habitual
Antes do café
Antes do jornal

No despertar o desespero da dúvida
Como um mantra uma oração estúpida
Voltarei sempre a lhe perguntar

Você ainda...

29.4.13

Gatos no telhado



Preciso dormir
Alguém terá que castrá-los

26.4.13

Desista



Não nos livramos
De nós mesmos
Até morrermos

E às vezes
Nem mesmo a morte
Nos trás alento

Basta que as marcas
Que deixamos em nosso entorno
Resistam ao tempo

25.4.13

Quando te olho



E te vejo
E te tenho

Não me tranquilizo
Enquanto não encontro

A pequena cicatriz
Que trazes no peito

Assim sei que és
Assim sei que estás

E que juntos continuamos
Até aqui vencendo

24.4.13

Era uma vez



Numa terra não muito distante
Num tempo em que as fantasias
Andavam um tanto quanto desacreditadas
E o amor longe dali vivia

Existia um reino mágico
E nele um castelo encantado
Onde morava uma dama
Dona e soberana de tudo que a vista alcançava

Tinha também os poderes do encantamento
Capazes de manter sua salvaguarda
Garantir-lhe sossego
E de fazer vir para si tudo que precisava

Escolhia a dedo
A comida adequada
A melhor bebida
E nos momentos de solidão e melancolia
O mais galante cavalheiro que por lá existia

Até que um dia
Passava por aquela freguesia
Um andarilho errante
Maltrapilho e falante
Menestrel das belas palavras
Faminto e de peito arfante

Subitamente viu-se arrebatado
Por um irresistível perfume
Fragrância tão suprema
Que de um esplêndido jardim emanava
Acompanhado de um inebriante canto
Carregado pelo vento
Que do alto de uma torre se espalhava

Sem conseguir oferecer resistência
Mudou o curso de sua passada
E dirigiu-se à fortaleza

Cruzou o escuro fosso
E por traz do atônito estrangeiro
Elevou-se uma enorme ponte
Aprisionando-o no monumento

Atravessou um imenso átrio
Decorado com um sem número de retratos
Semblantes que expressavam os mais diversos humores
Orgulhosos indiferentes tristes irados amedrontados
Mas nenhum trazendo no rosto a felicidade (isto era um fato)
Príncipes e reis
Antigos senhores daquele palácio

Veio recebê-lo a rainha
Em trajes sumários
Transparências de quase expor suas reais intimidades
Silhueta magnificamente torneada
E pele muito branca de delicadeza sobre humana

Ao deparar-se com o intruso aventureiro
Recuou assustada
Imaginando que pela primeira vez tivesse errado
Na escolha de um parceiro para a sua cama

Mas antes que conseguisse acionar a guarda
E por para fora a pontapés o infecto forasteiro
Eis que ele saca de sua guitarra
E ferindo suavemente o instrumento
Extrai dele um som melodioso
Um doloroso lamento
Seguido de uma canção de amor intenso
Que capturou de imediato a monarca por dentro

A feiticeira experimentando da própria poção
Encantou-se ao ponto
De sem mais delongas
Em alto e bom som
Ordenar que se iniciasse a recepção
E lhes fosse servida
A já cuidadosamente preparada refeição
 
Partilharam do vinho real
De doces salgados e frutos sem igual
Licores
E já excedendo-se em picantes devaneios
Adentram aos nobres aposentos
Rindo muito
E carregando-a nos braços o hercúleo mancebo

No adornado leito
Rapidamente desfizeram-se das vestes
De riquezas tão distintas
E mergulharam numa noite de amor extremo
E comunhão muito precisas

Beijos ardentes
Bocas reciprocamente ativas
Privacidades com invasão permitida
Nobre e plebeu nivelados pela carne
Junção de espécies
Num improvável enlace

Ao final da noite
Saciada mas intranquila
Temendo aprisionar-se em definitivo
Pede que se retire o artista
Dando-lhe o tempo de um minuto
E exigindo (sem olhar para trás)
Que com sua vida prossiga

Ele a obedece sem colocar empecilho
Considerando ter sido premiado
Por poder desfrutar de tão mágico destino

Deixa o reino feliz e satisfeito
Lépido e faceiro
Banho tomado
Bom cheiro
Um casaco novo de reforçada trama
Algum ouro no bolso
Barriga cheia
E muitos salamaleicos

E para eternizar o evento
E nunca esquecer a magnífica experiência
Compôs esta cantiga
E por todas as terras que depois passou
Lhes deu ciência

Esta história contou-me um ancião
Na mesa de um bar
Numa viagem que fiz ao Japão

Mas disso nem mais tenho certeza
Se foi fato ou criação
Pois já tinha as ideias um pouco embaralhadas
Depois da vigésima cerveja

23.4.13

Por favor



Permita-me viver
Nunca mais me acorde deste sonho

22.4.13

Você não pode imaginar



A dimensão
Do que é capaz de me dar

Pelo simples fato
De estar

19.4.13

Faça valer a pena



Termine de ler este poema
E trate de me esquecer

18.4.13

A represa é o rio que engordou



A chuva é a nuvem que caiu
O raio é a luz que pouco acendeu
O trovão é o encontrão de teimosos
O vento é o oceano suspenso que não se vê
O nevoeiro é o ar flagrado pelos olhos
O terremoto é o planeta que se espreguiçou
O vulcão é a terra com indigestão
O jardim é a floresta que amansou
A estrada é a picada que tem pressa
O edifício é a casa que se levantou

O homem é o menino que espichou
A mulher é a garota que madurou
O choro é o riso que inverteu
O grito é o silêncio que fugiu
A tristeza é a alegria que alguém enjaulou
A saciedade é a fome que dormiu
O pensamento é a ferramenta da cabeça
A lembrança é a vida repetida lá dentro
A saudade é a consolação pela perda
O sonho é o cinema em mim mesmo
O sono é o ensaio para a morte

17.4.13

Parte



Se achares que é chegada a hora
Mas tem piedade
Não leves contigo o meu coração

Leva sim este amor
Pois tua ausência fere (fundo)
E faz sangrar (muito)

E se o coração que me restar
Vazio permanecer
Chance de viver uma outra paixão
Ainda terei antes de morrer

16.4.13

Mulher



Tua natureza felina
Não te faz empardecer

Nas noites de calor
É peculiar a tua lascívia

15.4.13

A força do bruto



Foi vencida pela sutileza da fêmea
Bastou um leve toque nos cabelos
E o feitiço dobrou o aço da lâmina
Fazendo mergulhar o macho
Num sono profundo perfeito
Sono dos desejos saciados

12.4.13

Meu porco



Criado em chiqueiro
Com chão de cimento
Vendo o portão aberto
E sem entender bem o fato
Sai do confinamento

Atraído pela lama ao lado
Não foge

Chafurda
Se lambuza
E entorpecido
Refastelado
Adormece

É capturado
E novamente enclausurado

Está gordo e pesado
Pressente a morte
E se lamenta
Com um grunhido longo
Carregado de arrependimento

11.4.13

E sobre um chão de cimento intacto



Tulipas vermelhas brotaram

Uma a uma
Destacaram-se do solo
E voaram

Perdendo-se no espaço

10.4.13

Tarde de abril



Azul extremo
Ardor ameno

Sonolências
Horizonte pleno

Um espiralado urubu
Voa lento

Não sobe por subir
Tem fome

Asas imóveis
Não importa o tempo

Não se cansa
Acompanha o movimento

Espera
Tem o olfato certeiro

O banquete estará servido
A qualquer momento

9.4.13

Imaginação



Casaco que veste as lembranças
Não se apoia em Celsius ou Fahrenheit
Prefere a escala Tempo
Que ao contrário das demais
Ao acumular graus
Evita o tilitar
Sobrepondo os agasalhos